UM LUGAR PARA OS MORTOS

Num grupo familiar, todos tem direito a pertencer: vivos e mortos.

A alma sempre se mostra disponível para a reconciliação pois sabe da força que isso tem para o clã familiar, dos que já morreram, dos que vivem e dos que nascerão. A alma não fica presa ou limitada às temporalidades inventadas pelo ser humano.

O terapeuta Bert Hellinger ensina que é preciso “olhar os mortos com amor…mas, isso não deve ser assim porque morreram e seja obrigado a olhar para eles com amor. Não. Aqui a questão que se coloca é que, por um tipo de amor infantil, enviesado, cheio de cobranças, muitas vezes, não deixamos as pessoas queridas da nossa família descansarem. Olhar com amor significa desemaranhar-nos dos mortos da nossa família, parar de apelar para lembranças cheias de reinvindicações ou de exigências, apenas deixar que sigam porque eles todos tem, por direito, um lugar em nosso clã.

A respeito de pessoas que prejudicaram a outras dentro ou fora do grupo familiar e que já estejam mortas, Hellinger recomenda que “os mortos, tanto vítimas quanto os perpetradores, querem e podem reunir-se, exceto quando os descendentes tomam partido deles e querem repetir todo o drama. Agindo assim, barram o caminho da reconciliação.

Neste inicio de semana, ao entrar em um hipermercado, fiquei surpreso ao ver tantos vasos de flores. Retiraram muitas mercadorias para abrir espaço para as flores porque conhecem o comportamento de massa das pessoas, sobretudo, em datas separadas para lembrar os mortos. Então, o mercado desumanizado e desumanizador transforma em mercadoria o gesto que deveria ser suave e amoroso, assim, para ter as consciências mais leves pelo ato mecânico de levar flores aos túmulos dos familiares, perde-se uma excelente oportunidade de dar um lugar no coração para os mortos das nossas famílias: os que morreram por doenças, por velhice, os abortados, os que tiveram abortos espontâneos, os assassinados, os que suicidaram…o lugar mais adequado à reconciliação é o nosso coração.

Mesmo que esteja levando flores, queimando incensos, elevando preces ou chorando seus mortos, faça isso com ternura, atitude amorosa e profunda vontade de dar um lugar na sua alma a eles. Sendo a morte uma ilusão, todos os mortos fazem parte da vida da família, mesmo aqueles cujos nomes nem sequer sabemos, eles tem direito a um lugar onde possam descansar em paz.

Se queremos cura e solução em nossas vidas, o melhor que podemos fazer é dar um lugar especial para os mortos e olhar para eles com amor. (Aluísio Alves: Doutor em Educação Médica, Psicanalista, Terapeuta Sistêmico, Constelador Familiar).

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