A DESGASTANTE LUTA PARA SER O QUE NÃO SOMOS

Ser o que verdadeiramente somos é um desafio libertador.

Quanto mais arrancamos as camadas de falsas imagens e de projeções que os outros fizeram ou fazem a nosso respeito, mais nos tornamos nós mesmos. A essência se manifesta mais quando permitimo-nos olhar com senso de gratidão para o que nos compete ser e, assim, percebermos o que nos falta nesse caminho de contínuo aperfeiçoamento.

Por outro lado, o ego, esse terrível agregado psíquico que nos apresenta uma falsa versão de nós mesmos e do mundo, insiste em nos empurrar para o abismo sem fim de uma desgastante luta para ser o que não somos. Tangidos pelo ego, corremos o risco de vestir a roupa que não nos serve (refiro-me a papeis que imaginamos ser os nossos), a nos comportar como autômatos e viver a fantasia de ser espiritualizados e evoluídos (isso somente para nossa autoimagem infantil se sentir superior às demais pessoas).

Entretanto, quando despertamos a consciência, percebemos qual é nossa tarefa na existência e descobrimos que para ser quem verdadeiramente somos exige muito esforço e foco, todos os dias, sem descanso. Ser o que somos é uma bênção que se conquista e não um prêmio pelo nosso brilhantismo em algumas áreas da vida.

Ser o que somos é o que nos traz a paz tão esperada. Ser o que somos é o que acalma nosso coração tão sedento de vida que valha a pena ser vivida.

Ser o que somos exige que nos desapeguemos do que é falso ou expectativa dos outros. Quantas vezes, a tentação de fazer um teatro e representar quem não somos só revela um ego ferido, magoado e que busca aceitação por meio de firulas, pirotecnias e outros preços altíssimos que a ilusão nos diz que temos que pagar?

Estender a mão e curar é maravilhoso, mas nem todos tem esse dom que vem de esferas elevadas; ouvir com calma e profunda atenção à alma que fala é um poderoso método para curar feridas, mas é muito destrutivo quando alguém representa de forma distorcida essa função; guiar pessoas pelas trilhas do sucesso e da prosperidade é muito valioso, mas quem não tem a humildade dos sábios para Servir poderá levar para a morte aquele que buscava o mais da vida; enxugar as lágrimas dos sofredores é uma tarefa divina, mas não basta desejar consolar, é preciso um chamado que só se ouve com o espírito e nem todos já chegaram a esse grau de limpeza interna para receber tão grande oportunidade de praticar a compaixão.

Ser o que somos é – pelo paciente movimento do autoconhecimento – perceber em que ponto da Roda da Vida nos encontramos agora: se o momento é para receber, inclinar o ouvido com mansidão, e aceitar com alegria e entusiasmo o que nos chega; se o momento é para dar, levantemo-nos, com humildade e plena consciência de que nada do que fizermos nos tornará maiores do que verdadeiramente somos, afinal, servir é um direito que se conquista e não uma honraria para inchar o ego.

Ser o que verdadeiramente somos é um desafio libertador.

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