AQUILO QUE OS PAIS NÃO CONSEGUEM DAR

Compreendo a tua dor.

Concordo que tuas feridas se abrem quando te deparas com as injustiças e as imperfeições do mundo.

Sei também que te entristeces profundamente ao pensar naquilo que teus pais não conseguem dar para aplacar tuas carências ou diminuir o medo que sentes ao enfrentar os desafios da existência.

Vejo como natural a tua queixa a respeito da ausência dos teus pais, da morte de um deles ou dos dois, do afastamento que eles impuseram e da distância que parece ser intransponível; imagino da decepção que conservas em relação ao desinteresse dos teus pais por ti e até mesmo de algum grau de rejeição que demonstram…tudo isso gera uma dor que dilacera tua alma e te arranca as forças para seguires com fluidez e paz interior…

Tudo isso faz parte da tua história e ela não pode ser negada ou deletada da tua experiência. Essa história envolve cada parte da tua vida e, muitas vezes, amarra tua capacidade de ser o que verdadeiramente és na vida pessoal, amorosa, profissional e até na tua relação com tua fé mais sagrada.

Quero, antes de mais nada, dizer que respeito tua dor e sou solidário com tuas tristezas, essas tristezas que apagam o brilho dos teus olhos e que te mantém estacionado na estrada da vida; quero dizer-te algo mais: existe solução e cura para tudo isso que te aflige.

Olha para teus pais de uma forma diferente, agora. Vê que eles não conseguem mesmo dar algumas coisas que possam fazer teu coração vibrar de alegria ou de prazer de estar no mundo, porém, se observares com mais atenção, verás com clareza que, mesmo nas imperfeições que permeiam todos os seres humanos, teu pai e tua mãe serviram como poderosos canais para que a vida se apossasse de ti e isso é tudo o que teus pais podiam fazer. Nada mais. Vê, também, com os olhos da tua alma, que eles te deram o suficiente. Toma, com atitude agradecida, o que eles conseguiram te dar, além do canal da vida, o mínimo que puderam ou conseguiram; toma isso tudo, mesmo que consideres pouco. Esse pouco é o muito que eles podem te dar e, repito: é o bastante para ti.

Estás vivo e fazes parte da grande orquestra da vida. Assume teu posto e empunha teu instrumento e celebra tua presença no mundo. Por mais que penses que vales pouco, afirmo com plena convicção, que se, por um único segundo te curvares diante do teu pai e da tua mãe, recebendo tudo o que vem deles e compreendendo que é inútil reivindicar mais, tudo seguirá bem em teu viver, mesmo que, em algum momento, alguma lágrima retardatária insista em molhar tua face, mas, compreende que aquilo que teus pais não puderam dar é exatamente o estímulo que pode impulsionar tua vida para o mais significativo movimento que precisas fazer: seguir construindo uma nova história. (Aluísio Alves: Doutor em Educação Médica, Psicanalista, Terapeuta Sistêmico e Constelador Familiar)

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