AS LENTES DO PASSADO NÃO SÃO APROPRIADAS PARA VER O PRESENTE

Para ver com maior clareza o seu presente é preciso trocar as lentes do passado, é preciso deixar morrer o antigo para que o novo seja percebido.

Aquele homem chegou para ser atendido e ao se sentar à minha frente, jogou-se pesadamente numa cadeira e pareceu-me que estava carregando toneladas sobre seus ombros. Seu corpo demonstrava isso.

Embora estivesse mentalmente saudável, disse-me que não sabia exatamente porque estava ali e que não sabia também do que precisava. Seus olhos nem sequer me fitavam. Olhava para baixo ou para pontos vagos à sua esquerda e à sua direita. Afirmava que se sentia perdido e que sua vida já não tinha muito sentido.

Num tom melancólico e, às vezes, irônico, dizia que não conseguia ver o seu presente, sua vida atual e, muito menos, ainda, algum futuro.

No decorrer o atendimento, aquele homem trouxe à consciência uma descoberta libertadora: estava usando lentes do passado para olhar para a vida e elas lhe descortinavam um cenário sombrio e, na maioria das vezes, nem conseguia enxergar nada. Ele, num processo inconsciente, havia tomado a forma de ver de ancestrais que enfrentaram e pereceram debaixo de muita escassez. Por um amor inconsciente e uma lealdade de alma, o homem havia tomado para si a estranha tarefa de continuar a infelicidade desses antepassados a quem, inclusive, nem conhecera.

Seu pensamento havia sido inundado pela dor do fracasso financeiro e da escassez de amor, os mesmos sentimentos que fizeram naufragar os antigos familiares. Seu pensamento fora vítima da força que viera de pessoas que não conseguiram prosperidade e nem superar as adversidades. Por amor inconsciente, estava sem conseguir enxergar sua vida e seus dias presentes, sobrevivia como se fosse uma sombra sem vida e sem energia, perambulando sem vigor e sem vontade de estar fazendo o que fazia e se distanciando perigosamente do movimento da vida.

Após receber o que precisava para curar sua alma do que lhe cegava, seu corpo reagiu como se tivesse recebido um forte choque elétrico, seus olhos, agora, faiscavam de motivação e ele já esboçava um sorriso. Com os ombros aprumados e com novas lentes para ver a si, sua vida e seu presente, levantou-se, apertou com força a minha mão e saiu. Menos de um ano se passou e meu amigo que usava lentes do passado para ver o presente procurou-me novamente. Demorou pouco. Veio compartilhar sua gratidão à Vida porque havia aprendido a tomar no coração a força que vem de uma Fonte Inesgotável e que, ao passar por alguns antepassados, sofrera algumas pequenas interferências, mas que essa vida maravilhosa é contínua para ele enquanto se mantém grato ao passado e aos antigos membros do clã familiar; aprendera, acima de tudo, que as lentes do passado não são apropriadas para ver o presente.
(Aluísio Alves: Doutor em Educação Médica, Psicanalista, Terapeuta Sistêmico e Constelador Familiar)

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