SABER LIDAR COM A MORTE É SABER VIVER

O medo de perder pessoas queridas e de perder a própria vida impede muita gente de desfrutar da vida.

É preciso concordar que lidar com a não existência de si, das pessoas e das coisas é tarefa muito séria e exige um olhar mais profundo e mais responsável, porém, sem cair nas garras da ansiedade pela vida e do medo paralisante.

Trabalharemos com o verbo saber que tem a ver com sabor, sentir o gosto e, claro, para saber, é necessário se esforçar para aprender, por isso, o saber lidar com a morte é saber viver.

Lutar contra o fluxo eterno da existência é inútil. Tudo flui e, portanto, tudo passa, inclusive, nossa vida desta forma como a conhecemos. Nossa vida? Quem disse que temos alguma vida sob controle em nossas mãos? A realidade é outra: a vida nos tem nas mãos e dispõe de nós pelo tempo que lhe convém, não dispomos da vida como quem possui uma roupa, um carro ou uma casa, a vida nos tem, como percebeu Bert Hellinger, falecido há poucos dias.

A verdade, infelizmente, é que muita gente vive como se todos fossem morrer antes de si e, por isso, não reflete sobre sua transitoriedade, sua morte, negando ou adiando essa importante reflexão. Aceitar a morte dos outros e a própria é uma das atitudes importantes, mas, é preciso aprofundar para compreender ou criar um entendimento que nos permita atravessar tão difíceis desafios no pensar, no sentir e no vivenciar esse movimento da vida chamado morte.

Montaigne, um pensador que viveu de 1533 a 1592, na Europa, tem uma contribuição valiosa para refletir sobre a morte e sobre como lidamos com esse inadiável acontecimento para nós e para as pessoas a quem amamos, enfim, para todos. “ Ao morrer, dava-se conta de que conta ele, não deparamos em absoluto com a morte. Morremos da mesma maneira que adormecemos: simplesmente vamos nos distanciando. Se alguém tentar nos trazer de volta, ouvimos sua voz ‘nas fímbrias da alma’. A vida fica presa por um fio, pendurada na ponta dos lábios. Morrer não é um ato para o qual possamos nos preparar. É um devaneio sem sentido.”

Continua Montaigne: “Se você não souber como morrer, não se preocupe; a Natureza lhe dirá na hora o que fazer, completa e adequadamente. Ela executará perfeitamente este trabalho para você; não ocupe sua cabeça com isso.”

O interessante é que o filósofo ensina que a vida é mais difícil do que a morte porque, em lugar de uma entrega passiva, a vida exige atenção, cuidado e gestão.

Posso sugerir que se estude o Livro do Viver e do Morrer, de ensinamentos budistas-tibetanos adaptados à visão ocidental, isso faria bem ao interessado nesse tema essencial. Para além de leituras, recomendo que, de forma amadurecida, sem ideias rasas e crenças sem fundamentação, o exercício de viver com atenção à vida é o maior aprendizado. Sem ansiedade, sorver, sentir o gosto da vida, do prazer de estar com todos os seres e de estar consigo mesmo, isso é viver a um só tempo, o movimento da vida e da morte, sem a rabugice da culpa impetrada pela religião dogmatizadora. Felizmente, nem a vida e nem a morte, que são um movimento só, não está reduzido à pobreza dos que manipulam a culpa para aprisionar mentes a capturar pessoas nas redes da amargura e da escuridão, negando-lhes a luz de uma consciência desperta.

Saber lidar com a morte é saber viver porque o ato de morrer faz parte do grande movimento a serviço da vida, afinal, quando a morte se fizer presente, nós já estaremos em outro lugar, em outro estado. É assim conosco, é assim com todos os seres. (Aluísio Alves: Psicanalista, Terapeuta Sistêmico, Pós-Doutorando em Educação, Doutor em Educação Médica, Hipnose Clínica, Mentoria de Líderes e Equipes).

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