DOENÇAS GRAVES E POSSÍVEIS RELAÇÕES COM A HISTÓRIA FAMILIAR

Venho, nos últimos anos me dedicando ao estudo das dinâmicas profundas que acontecem na alma, seus efeitos e maneiras de oferecer mais conforto, alívio e solução para os imensos desafios, sobretudo, para lidar com doenças graves, situações às quais todos nós estamos sujeitos, não há exceção.

Quando fiz meu doutoramento em história da medicina e da educação médica em si, ficaram muitas lacunas que só foram parcialmente preenchidas com outros estudos que já vinha realizando desde antes e outros que tenho aprofundado nos últimos anos. Os onze anos que trabalhei em hospital de me permitiram diálogos muito ricos com diversos profissionais e especialidades da saúde.

Nos atendimentos em consultório e nos grupos, fica muito claro que existe um amor entre os membros da mesma família, mesmo que isso não seja muito falado ou percebido pelos integrantes, é um amor arcaico, visceral, um amor cego e leal. Isso pode ser muito ruim quando conduzido inconscientemente para o que é negativo.

“A conscientização desse amor cego, que se manifesta na constelação familiar, permite sua reorientação, de maneira a preservar o vínculo familiar, mas libertando o cliente do destino funesto a que se ligou. Trata-se basicamente de um processo de cura da alma que afeta também o corpo e pode favorecer a cura física.“ Este é o trecho inicial de um livro do Bert Hellinger que descreve trabalhos profundos com doentes de câncer cujos ensinamentos podem ser entendidos e aplicados em outras áreas da vida humana e é sobre isso que tratarei neste breve estudo.

A questão básica é compreender que esses “vínculos do destino são vínculos de amor. Entretanto, ao tornar-se consciente, o mesmo amor que leva à doença pode também desfazer os laços que nos prendem a destinos funestos”.

Esta é uma das várias razões que venho alertando pacientes, clientes e outras pessoas sobre o método da Constelação Familiar que vai muito além da simples colocação da árvore genealógica ou explicações rasas, ou seja, saber do motivo que isso ou aquilo está acontecendo é só uma parte; o desafio é a partir daí, ou seja, o que fazer para tratar? A função de um agente de cura é liberar o doente de seu envolvimento nos destinos pesados da família de origem e, em seguida, ligar essa pessoa à sua família de uma maneira curativa. A pergunta aqui é: como fazer isso?

Quando emerge o fato de que doenças graves enfrentadas pela pessoa têm fortes relações com sua história familiar, principalmente, as histórias de sofrimentos em função de adoecimentos e outros problemas que afetaram alguns membros, sobretudo, pais e outros antepassados, é preciso agir terapeuticamente da forma correta, mergulhando muito fundo nesse cenário familiar junto com o paciente e de lá vir à tona com ele, com novos significados e uma nova forma de amar os familiares.

Este método aplicado às doenças graves se dirige, como ensina Bert Hellinger, “em primeiro lugar, às pessoas afetadas. Poderá ajudá-las a reconhecer e a colocar em ordem, de maneira curativa, os vínculos dos próprios destinos. Também poderá ajudar os familiares dos enfermos e seus psicoterapeutas e médicos a encarar a doença e os doentes sob uma nova luz.” Durante os atendimentos especiais que faço, em determinados casos, é muito importante que o médico, o psicólogo ou outro especialista saiba do que emergiu da consulta realizada.

Uma das compreensões mais importantes para o profissional atender pessoas acometidas por doenças graves é que uma doença pode vir do nível físico, do nível da alma ou do nível do ambiente familiar, o que inclui a história da família e de antepassados que, na maioria das vezes, o paciente nem conheceu.
Silenciosamente e de forma inconsciente, a pessoa presa no amor infantil e cego, a pessoa declara: “Eu também quero morrer”, para seguir alguém da família, sobretudo, os mais velhos, como, se com esse desejo que pode ser materializado, estivesse provando sua lealdade e que é merecedor de pertencer ao seu grupo familiar. Obviamente que isso é uma construção interna e precisa ser descontruída para que a pessoa se liberte e manifeste de forma saudável sua ligação e seu amor ao clã familiar.

O método da Constelação Familiar quando corretamente compreendido e aplicado pelo profissional, traz à consciência do constelante “o amor escondido que faz adoecer, e leva o doente a encarar a pessoa que ele deseja seguir. Então, quando o amor cego que faz adoecer vem à tona, ele se transforma numa força que ajuda a permanecer em vida. Quando abre os olhos, o mesmo amor que conduzia cegamente à morte passa a levar à cura. Esta é a dinâmica básica” desta poderosa ferramenta de tratamento para questões de saúde, relacionamentos e vida profissional.

Para finalizar, digo que meu trabalho terapêutico é gerar a percepção, de forma objetiva de que existe uma dinâmica atuando por trás de uma doença grave ou de qualquer outro desafio existencial humano, e, em seguida, trazer à consciência qual é essa dinâmica e como lidar com esse movimento para gerar resultados internos e externos. Isso significa reorientar o amor cego e infantil quem tem levado para a doença, preservar e fortalecer o vínculo familiar e ajudar a pessoa a se liberar de um destino muito pesado. (Aluísio Alves: Psicanalista, Terapeuta Sistêmico, Pós-Doutorando em Educação, Doutor em Educação Médica, Hipnose Clínica, Mentoria de Líderes e Equipes).

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